Você já entrou no aplicativo da sua corretora, olhou o saldo do seu Tesouro Direto e se assustou porque ele estava valendo menos do que o valor investido? Se sim, provavelmente você esbarrou na marcação a mercado, um mecanismo que confunde até quem já investe há algum tempo. Neste artigo eu explico de forma simples o que é esse processo, por que ele existe e, principalmente, o que fazer quando você vê seu título público “no vermelho” na tela.

O que é marcação a mercado

Marcação a mercado é o processo pelo qual o preço de um título é atualizado diariamente com base no valor que ele teria se fosse negociado naquele exato momento no mercado secundário, e não apenas pela rentabilidade contratada na data da compra. Isso significa que o saldo que você vê no aplicativo reflete quanto alguém pagaria pelo seu título hoje, considerando as condições atuais de juros — e não necessariamente quanto ele vai valer se for carregado até o vencimento. Entender essa diferença é essencial para não tomar decisões precipitadas ao ver uma oscilação no extrato.

Por que o preço do título público muda todo dia

O preço de mercado de um título prefixado ou atrelado à inflação se move na direção contrária das taxas de juros. Quando os juros de mercado sobem, os títulos antigos, que pagam uma taxa fixa menor, perdem valor de mercado, porque ninguém pagaria o preço cheio por um papel que rende menos do que as novas opções disponíveis. Quando os juros caem, acontece o contrário: os títulos antigos, com taxa mais alta, ficam mais valiosos, porque garantem um retorno superior ao que está sendo oferecido agora. Esse movimento diário de preços é o que gera a variação que você vê no saldo do Tesouro Direto e em outros títulos públicos.

Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+: os mais afetados pela marcação a mercado

Os títulos que mais sofrem com a marcação a mercado são os que têm uma taxa de juros fixa contratada no momento da compra. É o caso do Tesouro Prefixado, que garante uma taxa fixa até o vencimento, e também dos títulos indexados ao IPCA, como o Tesouro IPCA+, que combinam uma taxa fixa com a variação da inflação. Como o componente fixo da remuneração não muda, qualquer alteração nas expectativas de juros futuros mexe diretamente no preço desses papéis no mercado secundário. Por isso, é comum ver esses títulos oscilarem — para cima ou para baixo — de forma mais intensa do que outros produtos de renda fixa mais simples.

Tesouro Selic: por que ele sofre menos com esse efeito

Já o Tesouro Selic é o título que menos sente o efeito da marcação a mercado, porque sua remuneração acompanha a taxa básica de juros no dia a dia, sem um componente fixo travado. Isso faz com que seu preço no mercado secundário fique sempre muito próximo do valor “justo” da aplicação, com oscilações bem menores do que as observadas em títulos prefixados. É justamente por essa característica que muitos investidores escolhem o Tesouro Selic quando comparam Tesouro Selic ou CDB para a reserva de emergência, já que a previsibilidade do saldo é um fator importante para quem pode precisar resgatar o dinheiro a qualquer momento.

O que fazer se seu título estiver “no vermelho”

Ver o saldo do Tesouro Prefixado ou do Tesouro IPCA+ abaixo do valor investido pode assustar, mas é importante lembrar de um ponto: essa perda só se torna real se você vender o título antes do vencimento. Se você mantiver o papel até a data combinada na hora da compra, vai receber exatamente a rentabilidade contratada, independentemente das oscilações de preço que aconteceram no meio do caminho. É por isso que a decisão de investir em títulos prefixados ou indexados ao IPCA, o índice que mede a inflação no país, deve sempre considerar o prazo em que o dinheiro pode ficar aplicado sem necessidade de resgate. Quem está em dúvida entre os dois tipos de título pode aprofundar a comparação em Tesouro Prefixado ou Tesouro IPCA+, qual escolher com a Selic em queda, já que o cenário de juros influencia diretamente qual dos dois tende a sofrer mais com a marcação a mercado dali para frente.

Vender antes do vencimento ou esperar: o que considerar

Se você realmente precisar do dinheiro antes do vencimento, vale avaliar o cenário com cuidado. Vender um título com preço de mercado abaixo do valor investido significa realizar a perda financeira naquele momento. Por outro lado, se as taxas de juros estiverem caindo, pode ser um bom momento para vender um título prefixado com ágio, já que seu preço de mercado sobe justamente quando os juros recuam. Antes de decidir, também vale considerar simulações práticas, como as apresentadas em quanto rende R$ 10.000 no Tesouro Direto por mês em 2026, para entender melhor o impacto de resgates antecipados no seu planejamento.

Perguntas Frequentes (FAQ)

A marcação a mercado é uma perda definitiva?

Não. Ela só se torna uma perda real se você vender o título antes do vencimento. Se mantiver o papel até a data combinada, você recebe exatamente a rentabilidade contratada no momento da compra, independentemente das oscilações no meio do caminho.

Por que o Tesouro Selic quase não sofre com a marcação a mercado?

Porque sua remuneração acompanha a taxa básica de juros diariamente, sem um componente de taxa fixa travado. Isso mantém o preço de mercado sempre próximo do valor justo do título, com oscilações bem menores do que em papéis prefixados.

Todo título do Tesouro Direto tem marcação a mercado?

Sim, todos os títulos públicos têm seu preço atualizado diariamente pela marcação a mercado. A diferença está na intensidade do efeito: títulos prefixados e indexados ao IPCA sofrem mais, enquanto o Tesouro Selic sofre bem menos.

Como sei se devo vender ou esperar o vencimento do meu título?

Depende do seu prazo e necessidade de liquidez. Se você não precisa do dinheiro agora, geralmente vale esperar o vencimento para receber a rentabilidade contratada. Se precisar vender, avalie se o cenário de juros está favorável ou desfavorável ao preço do papel naquele momento.

Marcação a mercado também afeta CDBs e LCIs?

Produtos com liquidez diária costumam ter marcação a mercado atenuada ou não aplicável na prática, mas CDBs, LCIs e LCAs negociados no mercado secundário antes do vencimento também podem sofrer variação de preço, de forma parecida com os títulos públicos.

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Foto de Ana Carolina Giampietro

Ana Carolina Giampietro

Editora do Blog ComoInvestir.blog

Especialista em educação financeira, já fez centenas de palestras e é principal autora do Blog Como Investir.